Minha flor preferida é o girassol, e a verdade é que não tem uma grande explicação por trás disso. Talvez seja a cor, talvez aquele jeito meio escandaloso de existir, como se uma flor pudesse ter personalidade própria, mas não existe um consenso. E muitas pessoas sabem dessa minha predileção, está bem longe de ser um segredo.

Entretanto, tenho uma amiga em especial que sempre se lembra da minha flor preferida. Ela costuma comprar flores para o seu estabelecimento, onde eu também trabalho como garçonete, e toda vez ela inclui um único girassol no meio do buquê. Veja bem, não são flores para mim, nem se trata de uma ocasião especial. Sequer tem motivo para o gesto, é apenas um girassol em meio a outras flores.

Mas é o meu girassol.

Isso aconteceu de novo no ultimo final de semana, e o girassol que atualmente está me observando sobre a mesa da minha cozinha me faz pensar em gentileza. Mais especificamente em como ser gentil não é sinônimo de realizar grandes atos. Claro que atos grandiosos têm seu momento e lugar na vida da gente, é maravilhoso ser amado aos berros. Mas afirmo que a principal beleza de conviver com pessoas naturalmente gentis está justamente na sutileza: elas não precisam de uma ocasião para demonstrar que prestam atenção em você.

Estar de Luto por uma pessoa viva

Foi pensando nisso que lembrei do livro escolhido para a Edição de Primavera do Eté Literária, o Clube do Livro da @eteorigens. Água Fresca para as Flores, de Valérie Perrin, acompanha Violette Toussaint, uma mulher que trabalha como guardiã de um cemitério. É uma premissa curiosa para um romance sobre a vida, eu sei, mas juro que funciona.

Em resumo, o livro insiste de diferentes maneiras em uma ideia que me interessa muito: presença. E usa isso, de forma muito delicada, pra contrabalancear toda a crueldade do luto, nos fazendo perceber que estar presente na vida de alguém é uma habilidade que vai muito além de se manter fisicamente próximo. O personagem marido da protagonista, por exemplo, passou uma vida ao lado dela, dormindo na mesma cama, dividindo a mesma casa. Mas nunca esteve presente de verdade. Durante toda a história, ambos passaram pelo que eu chamo de “estar de luto por uma pessoa viva”.

E essa é uma das ideias que mais me interessaram no livro: podemos estar muito perto de alguém e, ainda assim, não enxergar essa pessoa. Da mesma forma, alguém que está a quilômetros, ou até a vidas de distância, pode ser justamente quem permanece conosco.

E é aqui que eu volto aos meus girassóis. Aposto que essa minha amiga nem imagina toda a reflexão que essas flores provocaram. Mas a verdade é que todas as vezes que eu ganhei uma delas senti que recebi mais do que uma flor: recebi a sensação de ter sido lembrada. De ter alguém presente o suficiente para me ver, mesmo quando não havia nada para ser feito por mim.

Acho que essa é uma das formas mais discretas de carinho que existem: fazer alguém perceber que ocupa um pequeno espaço na nossa vida. Acredito verdadeiramente que amar é sinônimo direito de criar espaço para alguém nos nossos pensamentos e na nossa rotina. Perceba que não falo em substituir o espaço de outras coisas ou pessoas, mas em criar um lugar novo para aquele alguém especial, longe do qual podemos viver, mas não queremos.

E Água Fresca para as Flores fala sobre isso, sobre as marcas que deixamos nas pessoas, sobre reconfiguração de espaços e significados, sobre como as histórias individuais são muito maiores e mais complicadas do que aquilo que conseguimos enxergar de fora, mesmo quando se trata das pessoas mais próximas do nosso círculo.

Tudo que floresce precisa de cuidado

Não é um livro sobre flores, embora fale sobre flores. Mas com certeza é uma história sobre florescer, sobre entender que aquilo que cresce de forma saudável diante dos nossos olhos quase nunca começou por geração espontânea. Muito pelo contrário, tudo aquilo que parece naturalmente vivo costuma depender de pequenas coisas que poucos percebem: lembrar, perguntar, aparecer, escutar, cuidar, guardar um detalhe sobre alguém. É sobre a presença necessária para cultivar qualquer coisa, seja uma flor ou uma relação.

Particularmente acho que é só isso que importa, no final do dia. Ou melhor, é exatamente isso que importa.

Leia Água Fresca para as Flores e participe da Edição de Primavera do Eté Literária.

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Daia Kurmann

Sobre o Autor

Daia Kurmann

Criei o Diário de Leituras porque acredito que ler junto é mais gostoso: uma xícara, um livro e gente boa por perto. Aqui a gente organiza esses encontros de verdade — perto de você, do seu jeito.

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