O que um jogador de futebol e um clássico russo podem nos ensinar sobre a maneira como medimos uma vida bem-sucedida
Há algo deliciosamente inesperado em ver um jogador de futebol falando sobre Tolstói. Não porque um atleta não possa ler. Evidentemente pode. E deve. O curioso é quão incomum se tornou falar sobre literatura fora do nicho literário, numa década em que ler em público é tão incomum que se tornou "performático".
É sabido que o mundo da literatura constrói suas próprias fronteiras. Há livros considerados "difíceis", autores tidos como "eruditos" e ambientes vistos como "de leitores". Muita gente permanece do lado de fora simplesmente por achar que aquele espaço não lhe pertence. Nesse cenário, um jogador de futebol pode, involuntariamente, abrir uma porta que um crítico literário talvez nunca conseguisse abrir e falar com pessoas que o crítico não alcança, justamente por estar em um lugar diferente.
É aí que aparece Gustavo Scarpa, jogador do Atlético-MG, falando publicamente sobre suas leituras, recomendando A Morte de Ivan Ilitch e fazendo milhares de pessoas comprarem um clássico russo publicado originalmente em 1886, levando o livro ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon Brasil e inspirando um clube de leitura entre os torcedores.
O fenômeno diz alguma coisa sobre literatura e sobre a atemporalidade dos clássicos. Mas a meu ver, fala especialmente sobre influência e autenticidade.
Influência começa onde a atenção já existe
Estamos acostumados a pensar em influência como uma ferramenta direta de vendas: alguém tem muitos seguidores, fala sobre um produto, o produto vende. Fim da história.
Mas eu não acredito que tenha sido essencialmente isso o que aconteceu com Scarpa e Tolstói no ultimo mês. Pra quem não ouviu falar, o jogador indicou A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, e a indicação repercutiu enormemente. Ou seja, tivemos uma pessoa falando genuinamente sobre algo de que gosta e fazendo essa fala atravessar uma bolha, provando que influência não depende necessariamente de autoridade formal nem de fórmula preestabelecida, já que Scarpa não é um crítico literário nem construiu sua audiência falando sobre livros.
Na verdade, é exatamente o contrário: mesmo existindo um estereótipo bastante resistente de que jogadores de futebol não são exatamente conhecidos por sua relação com livros, Scarpa não precisou fazer um discurso ou um grande anúncio sobre suas leituras. Ele fez algo muito mais eficiente: leu. E depois, falou sobre o que leu.
Como sua influência se originou dos gramados, a repercussão não se deu apenas pelo tamanho do seu público. Há uma diferença muito grande entre influenciar porque se tem alcance e influenciar porque existe alguma coisa verdadeira por trás daquilo que se está dizendo. Ele não parece estar tentando construir uma persona intelectual para completar seu personagem público; simplesmente fala sobre livros porque lê, permitindo que aquilo que genuinamente o interessa exista no mundo, mesmo quando não combina perfeitamente com a imagem pública que fizeram dele.
É aí que entra Ivan Ilitch
Ivan Ilitch, protagonista do livro indicado por Scarpa, construiu uma vida que, vista de fora, parece bastante bem-sucedida: tem uma carreira de sucesso e o dinheiro equivalente, conquistou a posição social, a casa e a família que, vistas de fora, parecem adequadas ao ideal de vida que construiu, possui o reconhecimento público decorrente da autoridade da profissão, fruto de uma reputação ilibada. Em resumo, era a perfeita encarnação do prestígio profissional e sucesso social.
Mas estamos falando de um clássico russo, e isso é só o começo do livro. A história começa mesmo a tomar forma quando Ivan se aproxima da morte e passa a desconfiar do que passou a vida inteira tomando como parâmetro de felicidade. Tolstói, porém, não oferece uma fórmula para a felicidade - pelo contrário, ele questiona, junto com seu protagonista, as métricas pelas quais costumamos avaliar uma vida bem-sucedida.
Não bastasse isso, existe outro aspecto do livro que também chama atenção. Quando Ivan está morrendo, sua morte revela as pessoas ao redor, já que ele não é o único personagem inserido nesse ecossistema onde se vive em função das aparências. Esposa, colegas e amigos estão mais preocupados em como a morte de Ivan pode impactar suas próprias vidas do que sentindo genuíno pesar pela perda iminente de um amigo, colega, marido.
Entretanto, enquanto algumas das pessoas mais socialmente respeitáveis ao redor de Ivan egoisticamente transformam sua doença em inconveniência, Gerassim, o criado de origem camponesa, não teoriza a morte do patrão nem finge que está tudo bem. Ele simplesmente percebe que Ivan está sofrendo e cuida dele, trazendo mais uma camada de complexidade ao personagem menos academicamente letrado da trama e questionando diretamente a maneira como ainda hoje confundimos inteligência com capacidade cognitiva, formação acadêmica e capital social.
Provando que a vida imita a arte, o personagem menos provável e socialmente relevante daquele universo, tão inesperado quanto um jogador de futebol que lê, é quem demonstra a compreensão mais direta da situação humana – aquele que possivelmente possui menos conhecimento acadêmico sobre a morte é justamente o que melhor sabe o que fazer e como se comportar diante dela. Ou seja, camponês da literatura do século XIX e jogador de futebol do século XXI se tornam relevantes vindos de um lugar de onde a elite (seja a nobreza russa ou o meio literário acadêmico) não esperava muita coisa.
Acredito que é especialmente nesse ponto que a ficção e a realidade se encontram em suas diferenças: Ivan passou a vida tentando fazer aquilo que parecia correto aos olhos dos outros para, ao final, se questionar se a vida que viveu era realmente sua. Scarpa, ao contrário, atravessou uma expectativa social simplesmente assumindo publicamente um interesse que não cabia perfeitamente no estereótipo que haviam criado para ele, sem pedir autorização para gostar do que gosta.
Talvez o que tenha faltado ao personagem de Tolstói tenha sido justamente uma pitada de autenticidade, não para descobrir uma versão definitiva de quem ele era, mas para parar de organizar a própria vida em função do olhar alheio. Lição essa aparentemente aprendida com louvor por Scarpa, que além de bancar seus gostos, não diz às pessoas o que ou como pensar, mas oferece ferramentas para que elas possam chegar às suas próprias conclusões sozinhas - particularmente minha função preferida entre as várias ferramentas provenientes da arte literária.
