Sobre Torto Arado e a literatura como exercício de empatia
Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, pertence a uma categoria muito peculiar de livros: os que terminamos com mais questionamentos do que quando começamos.
Publicado em 2019 e vencedor do Prêmio Jabuti de melhor romance literário em 2020, o romance acompanha as irmãs Bibiana e Belonísia, descendentes de trabalhadores rurais que vivem na Fazenda Água Negra, no sertão da Bahia. Depois de um acidente na infância que altera profundamente a vida das duas, suas histórias se entrelaçam com as de uma comunidade marcada pela pobreza, pela exploração do trabalho, pela violência e por uma relação quase ancestral e mística com a terra.
Naturalmente político, o romance poderia ser facilmente transformado em uma coleção de conceitos que já conhecemos: desigualdade, racismo, exploração, concentração de terra, violência histórica. Tudo isso está lá, e não deve ser ignorado, obviamente. Mas me arrisco a ir um pouco além e propor que enxerguemos a literatura, enquanto contação de histórias, como um instrumento capaz de dar rosto, voz e contradição às nossas ideias de uma forma que uma lista de conceitos jamais conseguiria fazer.
Nesse exercício, imaginemos que "terra" deixe de ser apenas uma questão econômica e que "religião" não seja apenas uma posição sobre acreditar ou não acreditar em algo ou alguém. Vamos começar uma discussão que interessa muito ao Diário de Leituras: o que acontece quando um livro não serve para confirmar aquilo que já pensamos, mas para propor um novo ângulo de visão, mostrando mais do que aquilo que conseguimos enxergar à primeira vista?
Ler para aprender ou ler para ter razão?
Vivemos uma época em que a informação virou um instrumento de confirmação, e me parece que perdemos a habilidade de saber de algo pura e simplesmente por saber, sem precisar imediatamente exprimir uma opinião a respeito. Estamos cercados de notícias, autores, pessoas e até obras literárias que nos devolvem a nossa própria imagem, mantendo-nos confortáveis em nossas pequenas bolhas, justificando nossas certezas absolutas e decorando-as com frases de efeito - sim, eu sei que os algoritmos fazem isso por nós, mas não sejamos hipócritas em colocar toda a culpa neles.
Propositalmente ou sem querer, escolhemos o autor que pensa como nós, a resenha que concorda conosco, a história que replica ou mais se assemelha à nossa própria realidade, a interpretação que confirma aquilo que já decidimos antes mesmo de abrir o livro. Entretanto, há uma diferença enorme entre ler para descobrir algo novo e ler para ter razão. Quando lemos apenas para confirmar nossas certezas, normalmente estamos menos interessados no que podemos aprender com a história e mais em encontrar munição argumentativa, seja para o objetivo que for. Normalmente, discutir na internet.
Encontrar um personagem que pensa como nós, um narrador que organiza o mundo segundo nossas categorias, uma história que distribui com eficiência os papéis de vítima e vilão é reconfortante. O contrário, porém, é incômodo. Pior ainda é perceber que podemos compreender um ponto de vista sem obrigatoriamente concordar com ele. Isso exige esforço consciente. É preciso tentar entender os motivos que fazem as coisas serem como são e as pessoas agirem como agem. E também certa dose de coragem para, depois de entender tudo isso, decidir o que nos diz respeito e onde nos encaixamos com nossas opiniões.
Buscar um contraponto não serve necessariamente para nos convencer do contrário. Uma história desconfortável, na verdade, é bem mais que isso - ela nos obriga a sair, por algumas horas, do lugar conveniente de onde julgamos o mundo.
O desconforto de perguntar o que mais existe ali
Uma obra pode apresentar um personagem racista, violento, religioso, conservador, revolucionário ou profundamente equivocado sem que o livro esteja defendendo aquela posição. Essa distinção parece óbvia, já que uma das funções mais elementares da literatura é contar histórias, mas é surpreendentemente difícil de sustentar quando a leitura desencontra nossas convicções.
E a graça está justamente aí. De boca fechada e com apenas nosso próprio nariz dentro do livro, a literatura permite uma coisa que a discussão pública frequentemente elimina: compreender antes de julgar. E olha só que loucura: compreender alguém não é a mesma coisa que absolver essa pessoa.
Compreender é tentar descobrir como aquela pessoa chegou até ali, quais medos carrega e quais valores recebeu, o que aprendeu a chamar de certo e o que nunca teve oportunidade de questionar. Perceba que concordar ou não com ela é outra questão - sim galera, é possível compreender algo ou alguém sem partilhar da mesma opinião.
E esse raciocínio também vale para a própria realidade que uma obra literária retrata. O sertão de Torto Arado é, geograficamente, parte do mesmo território brasileiro que aparece em Os Sertões, de Euclides da Cunha, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e em Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Mas o mesmo chão é retratado de maneiras radicalmente diferentes por pessoas diferentes, em épocas diferentes (1902, 1938 e 1956, respectivamente).
O sertão de Euclides não é exatamente o sertão de Graciliano. O sertão de Graciliano não é o mesmo sertão de Guimarães. E nenhum deles é exatamente o sertão de Itamar Vieira Junior. O que parece ser simplesmente uma parte do Brasil vai se tornando muitas coisas ao mesmo tempo, já que o Brasil não cabe em um único livro e nenhuma perspectiva é capaz de esgotar uma realidade.
A literatura como laboratório
Acredito, de todo o meu coração, que a literatura, além de arte, é também um laboratório. Afinal de contas, é fato que aprendemos com livros e com histórias, sejam elas reais ou fictícias - bom e velho aprender pelo exemplo, em resumo.
Mas esse aprendizado não acontece apenas através de uma mensagem final edificante ou de uma moral da história belamente construída. Existe valor naqueles livros que fazem a gente duvidar até do tipo de pessoa que é. Aqueles que complicam. Uma personagem pode ser vítima e, ao mesmo tempo, reproduzir uma violência contra outra pessoa. Uma crença pode parecer absurda para quem está de fora e ser fundamental para quem vive dentro dela. Uma tradição pode proteger uma comunidade e também aprisioná-la. Uma escolha pode ser compreensível, com a qual inclusive concordamos e juramos que faríamos igual, e ainda assim estar absurdamente errada.
Perceba: a literatura não precisa resolver essas contradições. Seu trabalho pode ser simplesmente contar uma história e nos obrigar a permanecer diante dela por tempo suficiente para que seus conflitos deixem de parecer tão simples. Permitir-nos morar dentro da cabeça de alguém que não somos nós (mesmo que esse alguém seja fictício), em uma casa que não é nossa, numa família que não é nossa, numa religião que não é nossa, numa terra que não é nossa e numa época que não é nossa exige que a gente acredite no mundo do outro. Nos obriga, por algumas páginas, a aceitar que esse mundo existe.
Talvez ler seja uma forma de perder um pouco a razão
No fim, também acho que existe algo profundamente político em tudo isso, embora não no sentido partidário da palavra. É político porque diz respeito à maneira como sentimos e à maneira como construímos imagens sobre outras pessoas, porque diz respeito ao que consideramos legítimo, normal, aceitável ou impossível de compreender. E por isso, antes de anunciar a próxima ditadura ou o próximo fim da democracia, talvez valha a pena experimentar essa coisa revolucionária: ler de verdade.
Não apenas livros que confirmem aquilo que já acreditamos ou apenas personagens que nos representem. Não apenas histórias nas quais sabemos imediatamente de que lado devemos ficar, mas também aqueles livros que nos deixam desconfortáveis, aqueles que apresentam alguém que não conseguimos compreender imediatamente. Aqueles que nos obrigam a reconhecer alguma coisa no personagem que preferíamos condenar à distância.
Importante frisar que ler não significa abandonar nossas convicções, mas submetê-las, de vez em quando, à experiência de serem confrontadas. A grande força de um livro não está necessariamente na quantidade de respostas que ele oferece, mas na qualidade das perguntas que origina.
O Brasil não cabe num livro
E é justamente essa a proposta do Clube do Livro do Ponto Coletivo Arte. O Brasil não cabe num livro parte da literatura brasileira contemporânea para colocá-la em conversa com obras que ajudaram a construir nossa própria ideia de Brasil. Não se trata de substituir os clássicos pelos contemporâneos, nem de fazer uma disputa entre "livros antigos" e "livros novos". A ideia é colocá-los frente a frente e fazer uma obra provocar a outra, para perceber continuidades, rupturas, permanências e diferenças.
A ideia do clube é percorrer, durante seis encontros, romances contemporâneos da literatura brasileira em diálogo com obras clássicas, usando a literatura como um laboratório para observar como diferentes escritores, em diferentes momentos, tentaram responder a perguntas que continuam entre nós. Porque o Brasil é grande demais pra caber dentro de um só livro.
Conheça a proposta do clube e acompanhe as próximas leituras do Diário de Leituras.
