Sobre o livro
Título: Vamos Comprar um Poeta
Autor: Afonso Cruz
Gênero: ficção/distopia
Tema central: o valor da arte e da literatura em uma sociedade orientada por produtividade, utilidade e consumo.
País: Portugal
Tipo de conteúdo: resenha e reflexão
Resumo: Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz, é uma ficção distópica que questiona uma sociedade em que produtividade, utilidade e valor monetário determinam a importância das coisas. Nesta resenha, refletimos sobre o papel da poesia e da literatura como ferramentas para imaginar outras possibilidades de mundo e construir pensamento crítico.

Vamos Comprar um Poeta deveria ter sido um livro rápido para ler em uma tarde de tempo livre. Nem pesquisei sobre o que se tratava: o título me deixou curiosa e isso bastou. Mas que surpresa se apresentou já nos primeiros capítulos, já que é ainda no começo que a narrativa começa a cutucar:
Não estranhem se os virem parados muito tempo como se estivessem a fazer contas. Não estão, são incapazes da soma mais elementar. Essas paragens são precisamente os momentos em que começam a fazer poemas nas suas cabeças. É um processo fascinante. Não se irão arrepender de comprar um poeta. E são muito mais asseados do que os artistas.
No livro de Afonso Cruz, vivemos em uma sociedade onde tudo é medido por números, lucro e eficiência. Os afetos são quantificados, nossos nomes viraram códigos, e o autor faz um paralelo extremamente irônico comparando animais de estimação com artistas, já que os primeiros não existem mais: agora, artistas são os novos pets.
Nessa realidade distópica, a poesia e a literatura são vistas como inúteis, pois não geram produção imediata nem enriquecimento financeiro. Uma provocação direta à nossa rotina: quantas vezes deixamos de sentir para trabalhar e produzir mais, agindo mecanicamente dentro de uma rotina pré-estabelecida?
Percebi que estava cada vez mais inutilista e que pensava em coisas só pela sua beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental. Estava cada vez mais esquisita, como dizia o meu irmão.
E há algo especialmente irônico no próprio título do livro. Não é "vamos ler um poeta", "vamos conhecer um poeta" ou "vamos ouvir um poeta". É vamos comprar um poeta. Até aquilo que deveria nos fazer questionar o mundo pode ser transformado em mercadoria. O poeta é adquirido, levado para casa e incorporado à rotina como qualquer outro objeto de consumo.
Com uma narrativa curta, delicada e absurdamente afiada, Afonso Cruz constrói uma espécie de fábula sobre como quantificamos e qualificamos as coisas e, principalmente, sobre o que acontece quando damos espaço ao sentir. Sobre o quão revolucionário pode ser questionar a verdade das coisas que sempre foram como são.
E é nesse ponto que a leitura me pareceu especialmente interessante: a poesia e a literatura foram as ferramentas narrativas que o autor usou para exemplificar que a arte lato sensu não serve para nos entregar respostas prontas, mas para nos fazer sentir coisas que nos fazem questionar. Então, para onde caminha uma sociedade em que a arte é tratada como luxo, inutilidade ou mero objeto de consumo? O que acontece quando deixamos de ter livre contato com histórias, imagens, metáforas e ideias que nos permitem conceber uma realidade diferente daquela que nos é apresentada como a melhor possível?
Sem metáforas, por exemplo, não é muito interessante falar. Eu posso dizer que uma janela é uma janela, mas isso já toda a gente sabe. Com a poesia posso dizer que uma janela é um bocado de mar ou uma cotovia a voar.
No final, o próprio autor explica:
A ficção e a cultura constroem tudo o que somos. Não nascemos com pelos e dentes afiados e garras. Criamos roupas e ferramentas, que são sempre produto da ficção, da cultura. A verdade salva-nos, por motivos evidentes, mas a ficção também. Podemos avisar que um tigre se aproxima, é importante dizer a verdade, constatar, mas para nos defendermos dele, precisamos de, antes de o animal ter aparecido, ter imaginado essa possibilidade para que nos consigamos salvar. A ficção salva-nos. Literalmente. Por imaginarmos, conseguimos saber o que fazer, conseguimos ter as ferramentas ou opções necessárias ao ato. Os animais nascem com a verdade, com uma sólida realidade que lhes deixa um reduzido espectro de aprendizagem; nós nascemos com menos verdade, com menos realidade, mas com possibilidades, com as armas imponderáveis da ficção: criamos. Um garfo ou um alicate têm uma utilidade evidente e nesse sentido valerão sempre mais do que um verso, mas um garfo ou o alicate precisaram de ser inventados. E, para isso, foi preciso imaginá-los, criá-los. Quando olhamos à nossa volta e vemos cadeiras, mesas, camisas, escovas, colheres, lâmpadas, canetas, livros, o que estamos a ver não é algo que nasce conosco, é algo que nasceu da imaginação, da ficção, das ideias. Esse mundo que nos rodeia é produto da cultura.
E talvez seja por isso que a nossa forma de ver o mundo tenha tanto a ver com a cultura que consumimos. Porque aquilo que lemos, ouvimos, assistimos e discutimos também serve para construir as ferramentas com as quais pensamos.
Talvez a literatura não tenha uma utilidade óbvia. Não cabe em uma planilha, não aumenta necessariamente a produtividade e levanta mais questionamentos do que oferece respostas. Mas ela nos faz sentir, e talvez seja justamente por isso que precisamos dela.
Leia mais. Perto de Casa.
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